Salário mínimo aumenta em meio a déficit crescente do governo
O reajuste de 6,79% do salário mínimo previsto para 2026 aumentará a renda de milhões de brasileiros e deverá estimular o consumo, mas também evidencia uma contradição no governo: enquanto promete responsabilidade fiscal, assume um aumento expressivo de despesas sem apresentar medidas claras de compensação. O consultor financeiro Paulo Azevedo destaca que o cálculo do reajuste combina inflação (INPC) e crescimento econômico (PIB), fórmula que traz previsibilidade e busca conciliar valorização salarial com os limites do arcabouço fiscal.
Apesar dessa metodologia, Azevedo ressalta que a conciliação não garante a sustentabilidade econômica. O setor público consolidado registrou, nos 12 meses até outubro, um déficit primário de R$ 37,7 bilhões, superior ao do período anterior, mostrando deterioração fiscal. Com base nos cálculos do governo, cada real incluído no salário mínimo implica R$ 420 milhões adicionais em gastos; assim, o reajuste de R$ 103 representa um impacto aproximado de R$ 43,2 bilhões nas contas públicas de 2026.
Para o professor, o aumento expressivo de despesas exige contrapartidas via aumento de arrecadação ou corte de gastos, mas faltam planos concretos e robustos. Ele observa que o país carece de reformas estruturais amplas — como melhorias tributárias, estímulos à produtividade, políticas de emprego e controle mais rígido da despesa pública —, o que torna o impulso econômico de curto prazo insuficiente para mitigar os riscos fiscais associados.
O novo salário mínimo começa a valer em janeiro, calculado pela inflação acumulada até novembro e por uma parcela do crescimento real do PIB dos dois anos anteriores. Como cerca de 59,9 milhões de brasileiros dependem direta ou indiretamente do piso nacional, o impacto distributivo é relevante. Azevedo conclui que o desafio do governo é equilibrar a proteção social e a redução da desigualdade com a responsabilidade fiscal, especialmente em um país com alta dívida e forte rigidez orçamentária.
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